Bananas rejeitadas pelo mercado podem gerar ingredientes funcionais

Pesquisadoras ligadas ao FoRC extraem polissacarídeos não amiláceos de bananas maduras, que têm propriedades semelhantes às da fibra alimentar presente nos cereais.

Fronteira do conhecimento

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil produz anualmente cerca de 7 milhões de toneladas de banana. Dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) apontam que, no país, o índice de perdas de bananas in natura chega a 40% da produção. Só o montante rejeitado gera ao redor de 3 milhões de toneladas de resíduos por ano. Aproximadamente 30% se perde somente na fase pós-colheita.

Pensando nesses números e com o intuito de utilizar as bananas rejeitadas para o consumo humano in natura, as pesquisadoras Analía Verónica Gómez e Lina Maria Rayo-Mendez, supervisionadas pela Professora Carmen Tadini, do Centro de Pesquisa em Alimentos (FoRC – Food Research Center), lançaram-se ao desafio de extrair os polissacarídeos não amiláceos das bananas maduras para obter ingredientes funcionais semelhantes às fibras alimentares presentes em cereais tais como trigo, aveia, cevada e outros. 

“A intenção do projeto de pesquisa foi extrair esses polissacarídeos não amiláceos, que chamamos de PNA, e utilizá-los como ingredientes funcionais em outras matrizes alimentares como produtos de panificação, bebidas para atletas, energéticos e isotônicos, bebidas lácteas, iogurtes, etc. Mas a banana madura tem grande quantidade de açúcares - sacarose, glicose, frutose -, e esse foi um dos nossos grandes desafios: retirar a maior quantidade de açúcares solúveis da banana antes de extrair os PNAs, para obter um produto final rico em PNA e com baixa quantidade de açúcares, pois estes atrapalhariam as propriedades funcionais dos polissacarídeos não amiláceos”, resume Analía, Engenheira de Alimentos que fez pós-doutorado sobre o tema no Laboratório de Engenharia de Alimentos (LEA) da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP). 

As pesquisadoras trabalharam com a banana nanica, em seu último estágio de maturação. “A banana era adquirida verde e sem tratamento em câmaras de maturação com gás etileno, um hidrocarboneto que as plantas produzem e que é responsável pelo amadurecimento. Isso porque queríamos trabalhar com os frutos em condições que simulem a maturação que ocorre naturalmente. Mantivemos as bananas numa câmara climatizadora no LEA, que simulava a maturação in natura e controlava a temperatura e a umidade relativa do ambiente. Para que a banana atingisse a maturação desejada, era necessário mantê-la durante aproximadamente 14 dias na câmara”, explica. 

Segundo Analía, para garantir que a equipe iria trabalhar com uma mesma safra, as pesquisadoras compraram o lote, realizaram o processo de amadurecimento na câmara e uma vez atingido o estágio de maturação desejado, descascaram as bananas, fatiaram em rodelas e congelaram até o momento de serem utilizadas. Na hora de realizar os ensaios, as rodelas de banana eram descongeladas e amassadas num liquidificador até a obtenção de um purê de banana homogêneo. Este foi o produto utilizado nos ensaios.

Retirada de açúcares – Para extrair os açúcares do purê de banana, as pesquisadoras testaram diferentes solventes no intuito de encontrar o mais eficiente para o processo e que fosse, ao mesmo tempo, seguro para o consumo humano. “Acabamos optando pelo etanol absoluto (99,5%), que consegue extrair os açúcares solúveis e desidratar a polpa da banana numa extração rápida, o que evita que o produto final fique marrom pela ação das enzimas. Queríamos um produto que ficasse com uma cor clara, similar à da farinha, com o intuito de adicionar esse ingrediente funcional em matrizes alimentares à base de cereais”, salienta ela, acrescentando que o produto obtido ainda não foi testado em alimentos.

As pesquisadoras avaliaram diferentes tempos, temperaturas e condições de extração. “Trabalhamos com tempos de extração de 30, 60 e 90 minutos e temperaturas de 25 °C e 65 °C”, lembra Analía. 

“Colocamos o purê de banana mais o solvente num recipiente, agitando mecanicamente, e testamos várias proporções amostra/solvente: 1 (alimento) para 10 (solvente), 1 para 7 e 1 para 5. Como não tínhamos referências de trabalhos publicados anteriormente sobre esse tipo de extração numa matriz similar, tivemos de cobrir uma ampla faixa”, recorda a Engenheira de Alimentos.

O melhor resultado, ou seja, a combinação que permitiu a extração de maior quantidade de açúcares, foi obtido com 30 minutos de extração, na proporção 1 para 5, com 65 °C de temperatura. Nestas condições, as pesquisadoras conseguiram obter valores satisfatórios de índices de extração de açúcares acima de 80 %. 

“A caracterização físico-química do produto obtido ainda não foi realizada e é o trabalho que ainda tem de ser feito: saber que quantidade de PNA há no produto final, e quais são os outros componentes presentes nesse produto, além dos PNAs.”

Curiosidades – Há vários motivos para que uma quantidade tão grande de bananas seja rejeitada no mercado brasileiro. Muitas bananas, quando são colhidas, sofrem danos mecânicos, outras não atingem o tamanho que devem ter para a venda. E também tem o lado do consumidor, que vai escolher sempre a mais “bonitinha” e rejeitar aquelas outras que têm manchas pardas na casca. As bananas rejeitadas podem virar chips de banana, podem ser usadas como alimento para animais. Mas a sobra ainda é muito grande, segundo os dados da Embrapa.

Saiba mais:

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Fontes:

Banana. O produtor pergunta, a Embrapa responde: Marcelo Bezerra Lima, Sebastião de Oliveira e Silva Cláudia Fortes Ferreira (Editores). Embrapa Brasília, DF 2012.

Desperdício de Alimentos no Brasil – um desafio político e social a ser vencido. Antonio Gomes Soares. Embrapa CTAA, Rio de Janeiro. Disponível em http://atividaderural.com.br/artigos/508fc56454d19.pdf

Imagem: Pixabay

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