29/06/2026 - Arroz de plástico importado da China. Frangos criados com hormônios. Alimentos contaminados liberados sem fiscalização. Histórias como essas circulam frequentemente nas redes sociais e costumam despertar preocupação entre consumidores. Mas o que essas narrativas não mostram é a existência de uma ampla estrutura de monitoramento, controle e regulação criada justamente para identificar riscos e garantir a segurança dos alimentos antes que eles cheguem às prateleiras.
Durante o USP Food Safety Forum, realizado no dia 19 de junho na Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq/USP), em Piracicaba (SP), Alexandre Novachi, diretor de assuntos regulatórios e científicos da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA), chamou atenção para um tipo de ameaça cada vez mais presente nos sistemas alimentares modernos: a desinformação.
Ao apresentar os principais desafios relacionados à segurança dos alimentos, Novachi destacou que, além dos contaminantes físicos, químicos e microbiológicos tradicionalmente monitorados pela indústria e pelos órgãos reguladores, existe hoje um quarto elemento capaz de comprometer a confiança da população: o que chamou de "contaminante ideológico" — informações falsas ou distorcidas que circulam rapidamente e geram dúvidas sobre produtos, processos produtivos e instituições responsáveis pelo controle sanitário.
Casos como esses ajudam a ilustrar o que Novachi classificou como "contaminante ideológico”. Em 2024, durante a crise de abastecimento provocada pelas enchentes no Rio Grande do Sul, circulou nas redes sociais o boato de que o Brasil estaria importando "arroz de plástico" da China. A informação foi desmentida por agências de checagem, veículos de comunicação e órgãos governamentais, mas mostrou como conteúdos sensacionalistas sem base científica podem se espalhar rapidamente. Já a crença de que frangos recebem hormônios para crescer mais rápido persiste há décadas. Embora a prática seja proibida e não utilizada pela avicultura brasileira, o mito continua circulando regularmente, mesmo diante de sucessivos esclarecimentos de especialistas e órgãos reguladores.
Segundo Novachi, o risco não está apenas na circulação de informações falsas, mas também na sua institucionalização. Durante a palestra, ele citou iniciativas recentes nos Estados Unidos associadas ao movimento "Make America Healthy Again", argumentando que algumas propostas regulatórias vêm sendo construídas a partir de percepções e narrativas que não encontram respaldo equivalente nos processos científicos utilizados por organismos internacionais de referência. Para ele, o caso demonstra como o "contaminante ideológico" pode ultrapassar as redes sociais e influenciar políticas públicas relacionadas aos alimentos.
Uma rede global de segurança – Ao contrário do que muitos imaginam, a segurança dos alimentos não é garantida apenas pela fiscalização realizada em cada país. Ela é resultado de uma rede de instituições científicas, regulatórias e governamentais que atuam em diferentes níveis, do âmbito internacional ao nacional.
Durante sua apresentação, Novachi destacou o papel de organismos como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e o Codex Alimentarius, criado em 1963 para desenvolver padrões internacionais relacionados a contaminantes, aditivos, resíduos de pesticidas, rotulagem e higiene dos alimentos.
Segundo ele, o objetivo é harmonizar critérios técnicos e científicos capazes de proteger a saúde dos consumidores e garantir práticas justas no comércio internacional. As diretrizes do Codex servem de referência para legislações nacionais e influenciam diretamente as regras adotadas por países importadores e exportadores.
No Brasil, esse sistema envolve instituições como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), responsáveis pela regulamentação e fiscalização de diferentes etapas da cadeia produtiva.
"Todo ser humano tem direito a um alimento seguro. Se não é seguro, não é alimento", afirmou Novachi.
Como o sistema responde aos riscos – Isso não significa que os riscos não existam. Segundo dados apresentados durante o evento, mais de 600 milhões de pessoas adoecem anualmente por doenças transmitidas por alimentos em todo o mundo, resultando em cerca de 420 mil mortes. Casos de contaminação, erros de rotulagem e recalls continuam ocorrendo mesmo em países com sistemas avançados de controle.
A diferença é que a segurança dos alimentos não depende da ausência de riscos, mas da capacidade de identificá-los, monitorá-los e corrigi-los. Como destacou o presidente da Associação Brasileira para Proteção dos Alimentos (BRAFP), Caio César Pacheco Carvalho, o setor caminha cada vez mais para modelos preventivos, apoiados em análise de dados, monitoramento contínuo e avaliação de riscos. Em vez de esperar que um problema seja detectado no produto final, a tendência é identificar sinais de alerta ao longo da cadeia produtiva e agir antes que ele chegue ao consumidor.
Em outras palavras, a existência de recalls, alertas sanitários e sistemas de fiscalização não é necessariamente um sinal de fracasso. Muitas vezes, é justamente a evidência de que os mecanismos de controle estão funcionando. Em um sistema alimentar global cada vez mais complexo, o desafio não é eliminar completamente os riscos, mas detectá-los rapidamente, tomar decisões baseadas em evidências e comunicar essas informações de forma transparente à sociedade.
O USP Food Safety Forum foi realizado pela Esalq/USP e organizado pela professora Daniele Maffei, do Departamento de Ciência e Tecnologia de Alimentos da instituição e pesquisadora do FoRC. O evento integrou as atividades do mês em que é celebrado o Dia Mundial da Segurança dos Alimentos e reuniu especialistas da academia, da indústria e do setor público para debater os principais desafios e avanços da segurança dos alimentos.
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