FoRC realiza primeiro estudo mundial sobre os efeitos do suco das laranja Bahia e Cara Cara na microbiota intestinal humana

Cientistas querem saber se, no futuro, será possível usar a bebida para equilibrar a microbiota intestinal de indivíduos ou populações que apresentem alterações no padrão de bactérias encontradas no intestino

Fronteira do conhecimento

Um estudo inédito da pesquisadora pós-doutorado Elisa Brasili, ligada ao Centro de Pesquisa em Alimentos (Food Research Center – FoRC) está investigando o efeito de sucos de diferentes tipos de laranja na microbiota intestinal humana. Supervisionada pelo professor Franco Lajolo, Elisa trabalha com duas variedades de laranja: a Bahia e a Cara Cara. A primeira é bem conhecida dos brasileiros, original do bairro do Cabula, em Salvador. De acordo com a Embrapa, é a variedade de mesa mais difundida no mundo. A segunda é ainda pouco conhecida, resultado de uma mutação espontânea do cultivar Washington Navel e encontrada pela primeira vez na Venezuela.

“Nós trabalhamos com o suco e não com a fruta. Fizemos uma análise de caracterização desses sucos para ver que tipo de flavonóides e carotenóides eles possuem, e também o conteúdo de fibras e de ácido ascórbico. Esse primeiro trabalho foi publicado recentemente. O objetivo final era estudar como os diferentes tipos de suco poderiam impactar a microbiota intestinal de voluntários previamente selecionados para um ensaio e, especificamente, avaliar o efeito de flavonóides e outros compostos bioativos presentes nesses sucos no metabolismo da microbiota intestinal humana.”

Elisa explica que, dependendo da variedade da laranja, o suco pode conter diversos compostos. Ela focou sua pesquisa especialmente em dois: a esperidina e a narirutina. “A microbiota intestinal metaboliza esses compostos respectivamente em esperitina e naringenina, duas flavanonas. Os benefícios dos flavonóides para o organismo vêm sendo muito investigados. E eu queria entender se a ingestão de sucos de laranja com diferente composição química poderia impactar de forma diferente a composição e o metabolismo da microbiota intestinal humana.”

Para isso, Elisa selecionou 21 voluntários saudáveis entre 20 e 43 anos (11 homens e dez mulheres) e caracterizou sua microbiota. “Executamos um ensaio clínico crossover para obter uma randomização dos participantes e tentar reduzir o máximo possível a variabilidade intra-individual. Os mesmos voluntários tomaram os dois diferentes sucos de laranja em diferentes períodos e de forma randomizada.

“Coletamos amostras de urinas e fezes em diferentes tempos experimentais realizando um ensaio de curto e de longo prazo: no ensaio de curto prazo avaliamos as respostas dos voluntários algumas horas depois da ingestão das bebidas, para verificar mudanças no metaboloma urinário. Lembrando que, geralmente, o metaboloma urinário reflete o estado fisiopatológico de um indivíduo. E, em relação à microbiota, analisamos sua mudança após o período de uma semana de ingestão das bebidas.” O artigo escrito por Elisa sobre os efeitos dos sucos de laranja na microbiota intestinal humana está sendo avaliado por um periódico de influência internacional.

Clostridia – De acordo com a pesquisadora, houve mudanças na composição da microbiota dos voluntários após a ingestão das duas bebidas. “Após a ingestão do suco de laranja Cara Cara observamos um aumento significativo nas famílias das bactérias Mogibacteriaceae e Tissierellaceae cuja abundância relativa se encontra alterada em várias doenças, tais como a doença de Parkinson. Diferentemente, após a ingestão do suco de laranja Bahia foi observado um aumento das famílias Veillonellaceae e Ruminococcaceae que possuem diversas funções benéficas ao organismo humano, incluindo a redução das patologias inflamatórias intestinais. O que posso dizer é que o aumento destas famílias de bactérias, que pertencem à classe Clostridia é um bom resultado.”

Elisa explica que hoje se sabe que a classe Clostridia não é composta apenas de bactérias patogênicas (como aquela que causa o botulismo e da qual todo mundo já ouviu falar). Existem algumas que têm efeitos positivos no nosso intestino auxiliando na manutenção de suas funções e na homeostase intestinal. Por exemplo: elas aumentam a produção de ácidos graxos de cadeia curta, importantes porque, entre outras coisas, são fonte de energia para as células do epitélio intestinal. “Detectamos o aumento de diferentes famílias pertencentes à esta classe de Clostridia ‘do bem’ com a ingestão do suco.”

Não é novidade que uma dieta rica em flavonóides oriundos de frutas e vegetais aumenta as bactérias com ação benéfica e diminui outras bactérias que têm um potencial patogênico. A pesquisadora destaca, porém, que essa mudança é transitória. Quando o indivíduo muda de novo seu padrão de dieta, a microbiota se altera novamente. “É como tomar probióticos. Quando você ingere, há benefícios. Quando para de tomar, os benefícios diminuem.”

Carotenóides – Apesar da Cara Cara ainda não ser uma variedade comercializada, pois está em fase de caracterização e estudos, a pesquisadora destaca a importância dessa qualidade de laranja, que tem um tom mais avermelhado do que as laranjas que costumamos consumir, como a Pera ou a própria Bahia. 

“Ela não é comercializada ainda, pois é pouco conhecida, mas há empresas investindo na produção do suco da Cara Cara justamente para que se conheça melhor essa variedade. Foi observado – e confirmamos essa informação no artigo de caracterização que acabamos de publicar – que a Cara Cara tem um conteúdo muito grande de licopeno, um carotenóide que não é muito comum nas laranjas. A presença de uma elevada quantidade de licopeno nos fez pensar que essa laranja poderia surtir um efeito diferente das outras. E, realmente, a mudança que ela operou na microbiota dos voluntários demonstrou isso. Há carotenóides na Cara Cara que não existem na laranja Bahia. Então, pode ser que a diferente mudança que observamos com a ingestão da Cara Cara esteja relacionada também à presença desses carotenóides – não só o licopeno, mas outros compostos, tais como luteoxantina e fitoflueno, que ela também possui em maior quantidade.”

Já a laranja Bahia tem um conteúdo de vitamina C bem maior que a Cara Cara, segundo a pesquisadora. “Não é uma questão de dizer que uma é ‘melhor’ que a outra. Mas sim que uma modula a microbiota intestinal de forma diferente da outra, estimulando diferentes bactérias. A modulação da microbiota não depende apenas dos polifenóis, mas da vitamina C e das fibras alimentares também, que são prebióticos. E as duas laranjas diferem em conteúdo de fibra: a Bahia tem mais fibra solúvel enquanto a Cara Cara tem mais fibra insolúvel.”

Segundo Elisa, a questão para os próximos anos é a seguinte: “será que poderemos ministrar suco de laranja para ajudar equilibrar a microbiota de populações ou indivíduos que tenham a composição da sua microbiota intestinal alterada, como aqueles que sofrem de doenças inflamatórias intestinais crônicas e indivíduos obesos, por exemplo?” Ao que tudo indica, segundo os primeiros estudos, essa pode ser uma opção.

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