Desnutrição na gravidez pode aumentar riscos de adultos desenvolverem obesidade

Causa estaria nos processos epigenéticos, que mudam o funcionamento dos genes, mas sem alterar a sua sequência. Alimentação tem potencial para reverter o problema.

Fronteira do conhecimento

A ciência já comprovou que a obesidade pode aumentar o risco de se gerar filhos que terão o mesmo problema de saúde. Agora, estudos mais avançados em nutrição e genômica mostram que a falta de alimentação durante a gravidez também pode ampliar as chances de uma mulher ter filhos que futuramente serão obesos. A causa estaria em processos epigenéticos, que são modificações do genoma que não alteram a sequência do DNA em si, mas mudam seu funcionamento. Por esse fenômeno, o organismo de alguém que passou por uma privação nutricional em uma etapa crítica do desenvolvimento se programa para guardar gordura, mesmo quando há disponibilidade de alimentos.

A boa notícia é que a alimentação tem potencial para reverter esse processo. É o que mostra uma pesquisa de conclusão de curso, conduzida com base em revisão bibliográfica, feita pela graduanda Juliane Smith Elias, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP). “Ela apontou para o fato de que os fenômenos epigenéticos são potencialmente reversíveis. Seria possível fazer a desprogramação, e uma das formas seria pela alimentação, pois vitaminas e compostos polifenólicos podem influenciar esses processos”, explica Thomas Prates Ong, pesquisador do Centro de Pesquisas em Alimentos (FoRC) e professor do Departamento de Alimentos e Nutrição, que orientou a pesquisa.

Memória celular – Os estudos sobre a formação da memória metabólica começaram após a segunda Guerra Mundial. “Uma pesquisa importante e pioneira nesse sentido foi o estudo ‘Coorte da Fome Holandesa’, que trouxe as evidências sobre a formação da memória metabólica”, conta o professor Ong. Nos últimos meses da guerra, e durante um dos invernos mais rigorosos da história da Europa, o Exército alemão impediu a chegada de alimentos a uma região da Holanda. A população que vivia nessa região foi estudada ao longo da vida para analisar o impacto da falta de alimentos pela qual passou o grupo – a Coorte Holandesa. “A saúde dessas pessoas foi comparada com outros holandeses da mesma idade, mas cujas mães e pais não foram privados de alimentação quando eles ainda estavam em gestação. Entre as pessoas da Coorte houve uma prevalência maior de indivíduos obesos, diabéticos e esquizofrênicos quando atingiam a idade adulta.” 

Segundo Ong, esses estudos mostraram que a falta de comida em etapas críticas do desenvolvimento – como quando se é um feto, na lactação ou infância –, pode induzir os genes a se programarem de tal forma que aumente o risco de desenvolver doenças crônicas. “O organismo de um feto que está se desenvolvendo com pouca caloria vai priorizar o sistema nervoso central, o órgão mais nobre, em detrimento do rim, fígado, tecido adiposo”, explica Ong. “Não haverá nenhum tipo de má formação grave, são alterações bem mais sutis, ocorridas no metabolismo em nível microscópico”, acrescenta. 

Trata-se da hipótese do fenótipo econômico. “Esse bebê está sendo avisado que o ambiente externo é complicado e que precisa se adaptar a épocas com falta de comida, então seu organismo se tornará mais eficiente na armazenagem de gordura”, diz. Esse processo pode ser ‘guardado’ pela memória celular, que o lembrará até a idade adulta de que precisa estocar energia. Estão instaladas as condições para a obesidade, pelo menos do ponto de vista epigenético.
Entender como essa memória celular opera foi um dos desafios dos cientistas. No caso da Coorte Holandesa, o organismo armazenou informações sobre a privação de alimentos com base numa situação que durou poucos meses. Portanto, estava descartada a hipótese de seleção genética, já que este é um processo que requer várias gerações de indivíduos para ocorrer. É aí que entra a epigenética. 

“O funcionamento dos genes não depende apenas de sua sequência de bases, mas várias modificações químicas podem tornar um gene mais ou menos ativo. A epigenética estuda exatamente como são feitas e desfeitas essas ligações químicas de longa duração reguladoras dos genes”, explica Ong. E uma das descobertas desse campo científico está no fato de que alterações epigenéticas podem ser transmitidas de célula para célula, quando elas se duplicam. “Por isso o indivíduo adulto tem essa memória de experiências do início da vida, mesmo que sejam experiências de poucos meses”, acrescenta. 

Porém, antes de chegar ao estágio da interferência via nutrição, há outro grande desafio para a ciência: saber quais são as marcas epigenéticas que aumentam o risco para obesidade ou diabetes. Hoje existem testes para sequenciar o DNA, mas no caso do material epigenético é mais difícil, pois este varia de célula para célula e, diante da quantidade enorme de células do corpo humano, os cientistas só conseguem trabalhar com dados apenas por aproximação, por média. “É um trabalho imenso de pesquisa”, finaliza Ong.


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