A oportunidade faz a fraude

Praticadas sempre com objetivo de ganho econômico, fraudes em alimentos raramente resultam em problemas de saúde pública; por isso, pouco se sabe sobre a frequência dessas ocorrências.

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Tema importante para a sociedade e a indústria alimentícia, as fraudes em alimentos podem ocorrer em vários pontos da cadeia de abastecimento e afetam tanto as empresas quanto os consumidores de diversas maneiras. Reunidos em um seminário sobre o assunto, experts, acadêmicos e representantes de empresas que processam e revendem alimentos debateram sobre o assunto em evento organizado pela Associação Brasileira para a Proteção dos Alimentos (ABRAPA) e pelo Centro de Pesquisa em Alimentos (FoRC – Food Research Center). Eles alertaram que é impossível saber a quantidade de casos a que a sociedade está exposta, mas que a solução do problema passa pela redução das oportunidades que o fraudador tem para cometer o crime.

“Boa parte das fraudes não acarreta necessariamente problemas de saúde para o consumidor, e as evidências se vão assim que o alimento é consumido. Mas, se ninguém fica doente, ninguém fica sabendo que a fraude aconteceu. Por exemplo: se houve troca de uma espécie de peixe mais cara por outra mais barata, o consumidor não vai adoecer, mas pagará mais caro por um produto de valor inferior. Talvez ele nunca saiba que foi enganado”, resume Roy Fenoff, professor do Departamento de Justiça Criminal da Universidade The Citadel, na Carolina do Sul (EUA), que se dedica há anos ao tema de fraude em alimentos.

Oportunidades – A troca de espécies exemplificada por Fenoff é uma fraude comum na cadeia dos pescados. “Com o atum, fazemos até teste de DNA para saber se é mesmo atum”, revelou Edison Antônio de Souza, representante do Carrefour presente ao evento. Mas há outras maneiras de fraudar alimentos, e várias técnicas para enganar tanto o consumidor quanto outros elos da cadeia. Diluir um alimento, substituir ingredientes de qualidade superior por outros de qualidade inferior e comercializar falsificações são algumas delas.

Segundo Fenoff, é preciso que o empreendedor saiba com o que está lidando e entenda os pontos fracos e as oportunidades de fraude em seu processo produtivo, antes de tomar medidas preventivas. Ele lembra que a fraude em alimentos é algo premeditado e praticado intencionalmente com objetivo de ganho econômico, e que a falta de mecanismos de vigilância e outras ferramentas de prevenção facilitam sua ocorrência. “A ciência criminal foca na oportunidade, considerada uma variável importante. Às vezes, o sujeito nunca teve passagem pela polícia, tem a ficha limpa. Mas viu a oportunidade, e aproveitou.”

Há, entretanto, casos em que o fraudador é sistemático e pode até dar diferentes golpes em diversas localidades. “Na indústria do leite há um caso que começou no Rio Grande do Sul, onde um fraudador vendia um preparado para colocar no leite, que balanceava as propriedades do produto adulterado, de modo a que não se percebesse a adulteração. A mesma pessoa foi para Santa Catarina, onde começou a aplicar outro tipo de fraude na cadeia: a adição de ureia agrícola ao leite para aumentar o teor proteico”, lembra Cristina Mosquim, representante da Viva Lácteos e da Associação Brasileira da Indústria de Queijo (ABIQ).

Segundo ela, na cadeia do leite há ainda questões regulatórias que facilitam as fraudes, como a revogação da Instrução Normativa 68, que estabelecia os métodos físico-químicos oficiais para controle de leite e produtos lácteos. Além disso, não há procedimento definido pelo MAPA para a destinação do leite fraudado. “Fica a cargo de cada fiscal”, disse Cristina.

Problema ancestral – Há alimentos que se destacam por serem alvos frequentes de fraudes. É o caso do mel, do leite, da carne, dos pescados e frutos do mar, do azeite de oliva e das bebidas alcoólicas. Segundo a consultora Elisabete Martins, da Quality Solutions, boa parte dos produtos campeões de fraudes hoje, como o vinho, o azeite e as especiarias, é objeto de fraude desde a Idade Média.

Recentemente, dois eventos marcaram uma mudança de conduta com relação a fraudes: um deles foi a adição de melamina ao leite, que aconteceu na China em 2008 e causou a morte de seis crianças. Em novembro de 2009, o país executou dois dos três responsáveis pela fraude que receberam pena de morte. O outro foi o escândalo da carne de cavalo misturada com a carne bovina, que afetou vários países da Europa em 2013. “A partir deste caso, o Departament of Environment, Food and Rural Affairs solicitou um estudo sobre o sistema de controle da cadeia de carnes na Europa e definiu uma série de controles adicionais”, disse Elisabete.

Entretanto, o tema ainda é um desafio para especialistas, para o governo e as empresas, como pontuou Donald Schaffner, membro do International Advisory Board do FoRC e professor da Rutgers University (EUA). Ao citar um relatório sobre fraude ocupacional publicado pela NSF International, ele alertou para dificuldade de abordagem do problema. “O relatório lista os fatores que possibilitaram a detecção de fraudes dentro das empresas, entre eles: confissão; vigilância; auditoria externa; análise de documentos... Mas o fator que apareceu em primeiro lugar foi a ocorrência de uma dica: alguém que percebeu algo errado e levantou o tema. Como é que vamos modelar a ocorrência ou não de dicas? Por isso, imagino ser complicado fazer análise de risco para fraude em alimentos”, disse ele, que é especialista em modelagem computacional, só que voltada para análise de risco microbiológico.

Big data – As soluções apontadas pelos especialistas no encontro vão desde a manutenção de equipes preparadas para atuar junto a fornecedores e clientes, passando pelo treinamento contínuo dos próprios funcionários da empresa, o uso de ferramentas digitais para rastreamento de cadeias de fornecimento até o incentivo de programas de denúncias anônimas, o uso de câmeras de vigilância e o monitoramento passo a passo da produção. 

“Onde trabalho, fazemos controle e monitoramento desde o recebimento do insumo. E isso gera uma quantidade de dados imensa. Recebemos cerca de 1 milhão de dados por dia, em média 30 por segundo. Chegou um momento em que precisamos nos valer de tecnologia, porque o sistema travou de tanta informação. Começamos a trabalhar com big data: parte do processo de análise acontece na fábrica, com o colaborador e seu tablet, e uma outra parte das informações fica na matriz, onde temos a consolidação dos dados para uma análise de risco mais pesada”, revelou Emília Raucci, da JBS.

O XV Simpósio Internacional da Associação Brasileira para a Proteção dos Alimentos, que aconteceu no Hotel Meliá, contou ainda com a participação de Marisete Cerutti, da Seara Alimentos; e Donizeti Cezari, da Nestlé – além de Ivone Delazari, presidente da ABRAPA; e de Bernadette Dora Gombossy de Melo Franco e Mariza Landgraf, respectivamente diretora e pesquisadora do FoRC. 

Saiba mais:

Evento da Abrapa em parceria com o FoRc aborda o tema "Fraude em alimentos"  

Imagem: Robert-Owen-Wahl por Pixabay">Pixabay

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